sábado, 27 de junho de 2009

Do desencontro sofrido

E o amor se constrói
no tempo dos desejos -

Nos instantes eternos
em minha transparente casa de vento
Cedo ou tarde
todos choram na casa onde moram -

Mas, e se demorar o tempo em que mudam os ventos?
E se o vento vindouro não mudar os desejos?
Como continuar, então, assim, sem composição?

No sonho que me escrevestes
é aos beijos que te sinto...

Ah! Quem pudesse adivinhar ou por uns instantes crer
do olhar igualmente doce
que só pudera evitado ser?

Mas, e no mais
ainda sigo a sonhar ser possível

E o poeta me cede a pena
com que tento acordada
viver o que só em sonho
é crível.


Wanessa Quíron

sábado, 29 de novembro de 2008

Gemeos


Vou entrar no meu umbigo
Que trágico é olhar ao redor
Dominando um corpo há solução?

Armas engatilhadas
Minorias de mim
Que me tomam quando olho você no escuro
É sempre outro em minha frente
Duas caras intituladas
Duas vozes igualmente caladas
Das mais diversas formas de calar.


Wanessa Quíron

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Não tenho pressa e escrevo

Não tenho pressa
Escrevo diante da janela aberta para ventilar e não tenho pressa
A poesia precisa de tempo
De trabalho
De paciência e eu não tenho pressa

Olho o relógio que badala sem pressa
Conta o tempo sem pressa
Um minuto a mais de vida
Um minuto a menos de vida

Rouba-me o tempo o relógio que badala
Ou sou eu que desperdiço o tempo gastando-o com badaladas?
Ou melhor ainda, ganho mais tempo ao vê-lo passar?

Escrevo. Procuro os signos misteriosos que revelam
linguagens de mim que são linguagens de outros
Cumpro bem minha sina
Não há dívidas com meu trabalho de escultor
E vou construindo estátuas dos outros que observo
E vou construindo faces lingüísticas
E não tenho pressa
Não tenho pressa e escrevo.




Wanessa Quíron

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Com a ida e com a volta


Não leve para casa
esses olhos de quem não sabe
o caminho colorido
e faz de conta que há o equilíbrio.

A queda procura o momento
da dança e a dança espanta.
A roupa no varal balança
O verso quem sabe alcança?

Cadê as velas para a noite sem sono?
Está com Pierrô que procura Colombina!
As ruas são escuras
O carnaval acabou cedo demais.

Leve-a para casa
Por um caminho de rosas perfumadas
No travesseiro de plumas
Faça sonhos outra vez!


Wanessa Quíron

Partes

Há uma parte de mim que eu conheço
Aquela que os outros lêem e traduzem
Outra ainda permanece no enigma que sou
Esse corpo cheio de impulsos e sentimentos que explodem
Transbordando dramas e tramas que compõem
Esse outro que sou eu!

Existe ainda um pedacinho
Que se faz notar na ausência, na profunda e incurável solidão.
Viver e apenas notar que não se vive
Hoje, confirmo sem medo e sem vacilar.
O tão frágil e pequenina é essa imensa casca de concreto
Que os outros traduzem como eu!




Wanessa Quíron